sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Prisioneiro



Na sua alcova ela é quase prisioneira.
E só eu dou-lhe as chaves.
Liberta, ela dança ao ruído da chuva,
Suja as canelas com lama, ri, cansa e dorme
e só eu cubro seu corpo com frio.
Ao descortinar do dia,
ela corre pelas picadas que eu desconheço,
caminha estalando as folhas secas,
bebe água de poço,
mancha os lábios com musgo,
brinca com os caracóis
e na volta diz bobagens, me beija
me arranha as costas fazendo meiguices com a voz.
Puxa meus cabelos... Desavergonhada!!
Frente ao retrato de minha santa mãe,
frente a brasa do fogareiro.
Decerto ela é minha, aqui tudo é meu.
É tudo que tenho, Aqui sou senhor.
Aqui sou prisioneiro. 
(Para ouvir clique aqui.)

Saudade de um pai

Quando um pai se vai...
Ah, como me desperta
o que quis e não fiz em tempo.
A alegria que não trouxe
pagaria, agora, para carregá-la pra ele.
Quantos anos te perdi?
Quantos abraços fingi te dar?
Quantos anos ficarei a lembrar do que poderia ter sido.
Queria eu ir com ele
sob a sombra de quem fez
o que nós mal pensamos em fazer
a cada prece de tua mão calejada
a cada prece do pão e doce que nos trazia da rua.
Quando um pai se vai
não sobram apenas uma cama, uma cadeira, um lugar.
Sobra a dolorida sensação
que ainda haviam muitas palavras e muitas mãos estendidas pra te dar.
(Para ouvir clique aqui.)