domingo, 10 de outubro de 2010

Aurora


Contempla o dízimo dessa aurora...
ela não é somente tua...
nem são teus braços que erguem o cenário...
nem és o maestro dessa trajetória...
mas parece ser só tu,
contemplador,
que acende esse enorme fósforo horizontal..

contempla esse porre,
essa ressaca,
sublime esperança laranja
sobre a pira indecente dessas lâmpadas acesas.

contempla maldito...
contumaz aventureiro dessas paragens
a agonia dessa noite não consumida
é o fim passageiro da tua agonia.

a aurora te acorda,
tu que renasce como um feto encardido.
A aurora tempera e dilui
a cor dessas calças sujas
e o desamor aos outros
que te vêem e são como tu.  

(Para ouvir clique aqui.) 

O geômetra


Um geômetra,
desses matemáticos, quase arquitetos,
quase artistas, desses aparentes ateus éticos,
disse poder prever o destino da gente com sua arte...
falando como doutor,
medindo atos e as palavras
como se em tudo tivesse uma fórmula encoberta,
disse ter a melhor filosofia para levar os homens ao paraíso e apontou a poesia como caminho.
Medindo os versos como seu os poetas formassem sobre o papel círculos e losângulos secretos, falou em cura da dor confinando neruda, drummond e borges a um triângulo equilátero perfeito,
 a uma triologia arquitetônica perfeita,
capaz de decifrar o mistério do nascimento das crianças e das rugas dos velhos.
“Falta poesia ao mundo, berrou. “Não a poesia dos livros e dos românticos entediados como sua própria aflição, mas a delicadeza que se perde na pressa desse tempo”, disse.   
“as almas não se encantam apenas corpos se somam na contabilidade traiçoeira do mundo”, alertou.                
 Falou tanto e de tanto falar, fez rir os sábios, confundiu os aprendizes e entendiou quem lhe assistia pela televisão.
 Quando terminou a sala estava vazia
e através das antenas de tv
o povo o confundiu como um novo número de circo e gargalhou sem fim...
com o testemunho de um Deus como losângulos nos olhos, retângulos nas maos, lágrimas esféricas no rosto e pura poesia no coração 

(Para ouvir clique aqui.)

A porta


a morte é uma porta
sem vendedor de bilhetes
nem leão de chácara.
movido pela vida,
lá foi tu.
logo irei eu...

irmão das mesmas bobagens
e ouvidos para toda a hora

além desta porta
além de todos os nossos túmulos,
Deus te espera ansioso
com um relho simbólico
e um velho baralho. 

(Para ouvir clique aqui.)

Sapatos


a vida é um grande sapato.
cujos cadarços envolvem todo o corpo.
os missionários de Aparecida acreditam e fazem acreditar que esses cadarços sobem até as mãos de Deus,
mas se assim for como chegam as mães as cegonhas?
como decolam os aviões carregados de cartões de natal?
como ícaro ousado subiu?
como sobem os balões e as vozes das crianças?

como descem os relâmpagos e as pedras da lua?
como sobem os abutres suicidas e as bolhas de sabão de um louco numa cela?
se há no céu uma rede de barbantes e na terra amantes enlaçados com um cordão de prata?

é, a vida é um grande sapato, um só.
o outro o imperador pôs numa garrafa e jogou no mar.
ando num pé só,
ando num pé só. 

(Para ouvir clique aqui.)


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Sultão


Se eu morresse  agora
seria como um errante,
como um sultão, dono de todo o tempo...

Se morto não pouparia o ego, nem as vaidades,
nem as melhores lembranças,
faria usura pessoal de tudo que vivi
diante do Senhor e seu juízo.

Morrer faz parte de um erro ou é todo o acerto de nossos descaminhos?
Morrer para tudo, renascer para tudo seria a saída mais honrosa
diante do lixo que acomodamos sob a cama quando ainda vivos?

Deus nos poupa dos maiores castigos
não nos deixando ver
o escuro atrás da porta
que escancaramos a cada dor que somamos aos outros,
e ao nosso próprio currículo...

No entanto,
Deus acomoda com o mesmo sorrisso,
o senhor gordo e o seu servo sem mãos
Deus acomoda também os ateus,
que amam super-homens,
que por sua vez,
e quando em carne,
adormecem chorosos no colo de suas mulheres. 

(Para ouvir clique aqui.)          

Palhaço


Sabe mulher,
quando pousas sobre mim
ja não tropeço,
nem mais quero fugir.
meu lugar é onde estás e tua voz,
 meu conto de fadas,
me faz adormecer
sem ser eu tua criança
ou o homem do fim dos teus dias.

Se viro então teu palhaço
quando ri de minhas graças,
atenta e linda
és toda plateia que ambiciono ter,
és todo e o único aplauso que sonho em ouvir.

Depois dengosamente me chama,
enamorada e boba
me seduz para sempre
num feitiço fatal,
minha bruxa madrinha,
febre que adoro ter,
não me perca,
não me perca.

Ao fim, caminha teus dedos sobre mim
viro assim teu palco e tua luz,
purpurina que te jogo
mas que carregas sem saber que tens,
purpurina que colho de ti e que devolvo
quando te faço feliz
quando te faço feliz.

(Para ouvir clique aqui.)

O inverso


O inverso de nossos deuses
e um lírio que apodrecendo
perfuma os lénçois que sujamos
e nosso hálito com aroma de maçã.

o inverso de nossa história
 é a pura verdade
num velocípede que corre sem rodas
numa estrada sem sinalização, nem placas
sem repressão de mães a tiracolo.

o inverso de todo o tempo
mora no insignificado nublado das coisas
na simplicidade delas.
não há futuro,
nem sexo de borboletas
nessa absurda arquitetura de gente

o inverso de nosso universo
é uma morada
 que as cores do arco-íris não decifram
onde um velho carteiro, aposentado de tudo,
calmamente diz :
“ alguma caixa postal não recolhida”...

Tirania dos calçados


há uma década
sou avaliado e julgado por meus sapatos
é a tirania dos calçados
desde que adão vestiu sandalias
e mostrou ao vizinho
desde de que a mãe falou
que havia mais cacos de vidros
do que caminhos

há uma década
sou como um pequeno esquilo
nos meus pés não cabem mais sapatos
e a besta do inverno, que assusta e me atrai com seu canto
por Deus, é aquilo que mais amo.

Flautistas inacabados



dos meninos que passam
dos últimos que se perdem de vista
um maestro ainda desperto diria:
“lá se vão  a música e a orquestra juntas,
flautistas inacabados e filhos que não tenho”.
 do outro lado da rua, um louco há pouco solto, por outro lado, diria:
“ lá se vão os herdeiros de tudo que não deixei; os médicos que mal curam e seus pacientes de mãos dadas”. 

Como acreditam os índios

sobre minha cabeça digladiam
anjos caídos e anjos que sobem...
em mim mora um judas com complexo de culpa
e um rei de pança caída...
sobre minha cabeça penduram tantos rótulos,
tantas poses,
capazes de degolar minha verdadeira ansiedade...

como acreditam os índios
a pose para a fotografia pode aprisionar a alma...
e toda a vontade...
como acreditam
a máquina e a imagem guardada
sentenciam como se Deus fosse...

como eles, acredito
e sinto que a cada sorriso amarelo que dei,
a cada álbum de fotos de família,
a ideia de morte e a distância de meus sonhos
é mais real...
e dolorosamente presente...

como acreditam os índios
o melhor juiz nunca morou por aqui,
sem suscitou qualquer outro caminho
a não ser nunca se fotografar...

nas suas crenças o sol e a terra
são presentes de um íntimo desconhecido
e não há exagero em crer que todo o ouro e o tempo necessário nos foi confiado...

como acredito
sobre nossas cabeças
digladiam levas de todos os anjos,
onde se dá o falecimento de quem brinca e sonha
e o nascimento de quem conta o tempo
com toda a pressa do mundo,
aguardando o trem que não chega
e a fotografia que jamais poderá revelar...