sábado, 21 de abril de 2012

                              Irremediável




Desço pelas entranhas dos séculos
e cavalgo sem volta na penumbra que desce até o abismo.
Perdido, sinto que não posso mais ser achado.
Oh Deus....desço com todos os desejos do mundo
mas agora só respiro Tua ausência.
Oh Deus...me faça acordar antes que
o último degrau dessa escada arranque meu pé.

Eu sei que desço com todas as honras que ganhei
e com o cheiro do ouro que acumulei...
mas minhas roupas se esfarelam a cada andar e
só me infesta o perdido aroma do cansaço
e do desespero que cheira a  mofo e pó.

A cada passo que dou meus ossos me traem
sou apenas carne e nenhuma promessa se
cumpre depois de tanta pedra carregada pelo mundo.
Oh Deus... me acorde antes que o último desses andares
esteja acima de mim.
Oh Deus...me devolva meus dias
antes que o anfitrião do lugar venha me estender sua mão ardente.

Onde estão os anjos? Será que ficaram no andar de cima?
Tudo que fui se extravia a cada degrau que piso.
Já não sou nada que o orgulho me referendou e as
as solas agora ardem sobre a areia quente e toda a desesperança
assola o coração.
Quem me ensinou esse trajeto?
Quem desenhou esses diagramas sobra a bússola que me guiou?
Quantos ainda virão e quem vai me receber?
Que livros não guardei na estante?
Porque não beijei quem cruzasse pelas ruas?
Porque não chorei por quem não via?
Porque desço antes da hora?
Porque não há placas de volta nem via de mão dupla?

Oh Deus..me acorde
antes que o trem desse lugar me despeje como carga no altar.
Tenho alguém que chama.
Preciso olhar minhas gavetas e dar um último tchau.
Oh Deus.... me devolva um último instante
para ver o rosto de quem mal beijei
e o voo das borboletas sobre as flores que nunca mandei.  

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