terça-feira, 16 de agosto de 2011

Welcome ranzinza

imagens de ovos de ouro


Imóvel silhueta de anjo.
Tua manta de lã.
Nosso canto de rua.
Maquiagem mal-feita no rosto,
e chicle de hortelã.
Ovos de ouro,
aves de asas podadas
e joelhos juntos na hora marcada de volta.
Somos argamassa de toda gente
mistura desejada e indesejada...
Madrugar de sonho, alvorecer de pesadelo.
Sol e toda escuridão no mesmo caminho.
O mundo de todas as cores.
O mundo tem todas as cores
e algumas nos cabem.
O mundo de todas as cores
recebe muitas vezes como um guarda noturno;
um abandono indesejado,
um sorriso cinza,
nenhuma promessa para o futuro,
um falso aconchego
e um welcome ranzinza.       

O sorriso de Grace Kelly



  
Quem foi que trouxe a carranca dos barcos para o centro da aldeia 
e engatilhou um arma na minha cuca?
Quem foi que expulsou os palhaços da cidade?
Nao dominamos a arte de fazer rir e estamos tão sós nessa interminável noite de circo.
Quem foi que ergueu um monumento a um suicida 
e derrubou nossa figueira e nosso coração de canivete?
Quem de nós quer fazer um exótico espetáculo
até que se desça o pano de fundo do palco do mundo,
onde feios e atormentados atores
sobrevivem pintando nos rostos
o sorriso de Grace Kelly?

Pequenas que choram

cyprus93: Paphos, Cyprus: first bath of Achilles - angel - Roman mosaics in the house of Theseus - photo by A.Ferrari - (c) Travel-Images.com - Stock Photography agency - Image Bank
Não abandona teus anjos
só porque te espreitam
e aparentemente atrasam teu caminho.
Não abandona teus anjos  
porque são eles como  pequenos faróis que guiam tuas decisões
e clareiam tua indisfarçável incapacidade de decidir.
São os espelhos pelo qual tu te vê.
Ainda erguido, ainda que sobrepujado, mas ainda vivo.
Não te chateia pelo tempo que te tomam.
É tempo de crédito, é tempo de esperança, vida e água viva
É colheita com correção aos olhos do Céu, fruto que não colhe por aqui.
Os pequenos que choram abençoam quem os recolhe da chuva.
Os pequenos que acordam no meio da noite
adormecem seus pais com o cansaço da missão cumprida.
Não importa o que o futuro poderá desenhar
teus braços estendidos fizeram a diferença,
ainda que mal se perceba.
Não abandona teus anjos
Só  porque eles te roubam o tempo.
As horas que nos tomam são terra semeada.
Os minutos que se foram em abraços e beijos
são sementes além desses dias,
além dessa atordada vida.
   

terça-feira, 26 de abril de 2011

Outro Calendário



Tens outro signo no calendário.
Outro tempo te inquieta e te acomoda.
Ainda assim a casualidade de tantos nomes e gostos
forjou nosso destino e misturou nossos dias.
Coincidência ou não
estávamos na mesma casa quando ele passou.
Quase com a mesma dor,
a mesma saudade
do que perdemos pela vida.
Eu advogo o que nunca tive.
Você defende o direito de ser feliz,
de namorar sob o teto da sala
de tirar os sapatos na chuva
e de amar como quem acredita em romances e em livros de cabeceira.
Desconheço a altura do próximo ponto de parada.
E não sei até quando tamanha diferença
se manterá despercebida.
Nosso caso, sim, não tem nome,
nem forma definida,
nem nomenclatura.
È amor sem dicionário.
Amor cuja poesia desses dias
poderá reinventar.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Prisioneiro



Na sua alcova ela é quase prisioneira.
E só eu dou-lhe as chaves.
Liberta, ela dança ao ruído da chuva,
Suja as canelas com lama, ri, cansa e dorme
e só eu cubro seu corpo com frio.
Ao descortinar do dia,
ela corre pelas picadas que eu desconheço,
caminha estalando as folhas secas,
bebe água de poço,
mancha os lábios com musgo,
brinca com os caracóis
e na volta diz bobagens, me beija
me arranha as costas fazendo meiguices com a voz.
Puxa meus cabelos... Desavergonhada!!
Frente ao retrato de minha santa mãe,
frente a brasa do fogareiro.
Decerto ela é minha, aqui tudo é meu.
É tudo que tenho, Aqui sou senhor.
Aqui sou prisioneiro. 
(Para ouvir clique aqui.)

Saudade de um pai

Quando um pai se vai...
Ah, como me desperta
o que quis e não fiz em tempo.
A alegria que não trouxe
pagaria, agora, para carregá-la pra ele.
Quantos anos te perdi?
Quantos abraços fingi te dar?
Quantos anos ficarei a lembrar do que poderia ter sido.
Queria eu ir com ele
sob a sombra de quem fez
o que nós mal pensamos em fazer
a cada prece de tua mão calejada
a cada prece do pão e doce que nos trazia da rua.
Quando um pai se vai
não sobram apenas uma cama, uma cadeira, um lugar.
Sobra a dolorida sensação
que ainda haviam muitas palavras e muitas mãos estendidas pra te dar.
(Para ouvir clique aqui.)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ausência


Posso somar todas as manhãs
que  te vejo acordar
e ainda não te reconhecer.
Eu faço bolhas de sabão pelo ar
desdenhando minha condição de objeto
e teus olhos malcriados
que adormecem quando desperto
e riem quando os meus lacrimejam.

Onde foste na minha ausência
e por que me deixas com quem não és na varanda?
Onde se escondeu e
como te achar se não desejas ser procurada?

Mulher... por quê choras quando saio
se no tempo em que venho lamentas?
Mulher... por quê se amaldiçoa quando estou
e ri do presente que te trago?

A voz de tantas se cala com coisas tão simples.
O pão que te sustenta, a sala limpa, a cama posta.
Aqui a comida não tem cheiro
Não vinga mais saudade no coração.
Traição é pouco, humildemente digo.
Antes a dor de tê-la saudosamente morta
A esperança quase sem vida
De esperá-la pra o jantar. 
(Para ouvir clique aqui.)