sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Boato


O boato me atordoa
sob o doce manto da credulidade e da ruim expectativa
não existe loucura, nem ousadia, que faça desacreditar
no que já foi dito e escrito..
no oficio de cada dia, de cada folha impressa,
e perante o juízo dessa lei.
Somos mesmo apenas criaturas de tv,
amantes das receitas de bolo,
e das ondas do rádio
que nos entristecem a cada manhã....
O silêncio que impera ocasionalmente
também me incomoda
como se assim fosse um grito de dor em cada ouvido....
não sei mais ficar sem suas histórias
sem a versão derradeira e maquiada da morte do rei...
Não há mais musgos, nem flores sobre tua casa
nem tua cama foi refeita antes de sair...
Só acredito no que ouço e leio
e sei que minto para meus próprios olhos.
Assim, a receita dessas horas ainda mistura
o açúcar da vizinha,
guarnecida com a farinha alva
e o boato que transformo
em guia de cego
e entrelinhas para acomodar qualquer desespero.

(Para ouvir clique aqui.)

Ela


Nem todo o tempo traduz tua grandeza...
Nem todo o anonimato de tua luta te fará menor
pois carregas para sempre os meninos
e suas cantigas
e suas danças
e suas armas
como quem, na verdade, conduz
sem as honras do passado
sem os dividendos do presente
mas com as sobras de um enorme futuro
que tem  tua cara e teu jeito
e que caminha beijando as flores  que nós não vemos
nem os anjos que despercebemos
nem a mãe, a mulher, irmã e filha
para as quais adormecemos
nesta noite
que ainda é nossa...
amanhã
será somente teu.... o dia....  

(Para ouvir clique aqui.)

Luiza


O coração do homem,
que já foi de criança,
a cada balada
guarda um segredo.
Um desejo que se perdeu,
riso de palhaço,
roupa de herói,
suspiro e chocolate.
O coração da criança
é como um tesouro;
ama sem olhar a marca dos sapatos
e não torce o nariz pelas costas,
como quem rouba toda a festa e toda a alegria.
Se Deus inventa pequenos
é porque, certamente, alguma coisa boa
ansiosamente nos aguada
se aqui não for um filho,
no Céu,.
um anjinho com tua cara.... 

(Para ouvir clique aqui.)

O trem


Nada me aquieta,
não me fartam
o belo destino e a cama de qualquer cidade a meu dispor.
Nem o melhor lugar que puder encontrar,
nem todo o carinho e atenção
que receba de uma cortesã
ou se uma virgem ou de sua mãe esperançosa..
Nada ou pouco me comovem por todo o tempo.
Minha inquietude
caminha com as estrelas que não vejo e
há sempre pó sobre os meus sapatos...
Nada, então, me basta
e nenhum sonho de amor
adia minha viagem ou impede que eu suba no trem.
Ainda que tudo esteja presente
estou acompanhadamente só..
sobre os trilhos de um caminho
que não sei onde vai dar...
Se deixo saudade, carrego mundanas expectativas...
Se deixo tristeza, apenas gozo antes que a noite desça
Se deixo rebentos, carrego apenas seus nomes
e todas as histórias que teimei em não lhes contar  
Desse jeito, os sonhos e os mais íntimos desejos
sobreviverão aos homens e irão morar nos filhos.
Vá, filho...
ser o que não fui
e vomitar os versos que mal balbuciei nos ouvidos de tuas mães..
Vá, filho...cumprir o que não prometi,   
e apagar meus rastros e toda a minha indiferença....

(Para ouvir clique aqui.)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sem sentido


Não há sentido...
nem memorável ou grande prazer...
a vida é estéril e rude
para nós que ainda não temos nome
ou que não definimos os desejos... nem seus objetos...
o sentido tem cor
e cheiro que não pertencem a esse mundo...
o sentido é não estar onde todos habitam ...
o sentido é, inexplicavelmente, uma coisa morta...
estar aqui é penar com as honras de quem goza...
Gozar é um verbo insincero..
minto quando finjo...finjo quando minto...
Meu medo é não estar no grupo dos sinceros
e minha dor e meu poder e não poder partilhar
da unidade da alma
que diabolicamente produzo e invejo....  

( Para ouvir clique aqui.)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Caminho


Caminho... como quem quisera ter sido o que ainda é.
Minha dor é só imaginar e quase não crer
nas certezas que a criança que fui guardava como moeda rara...
Minha dor é queimar meus dias como lenha velha
e ser o único lenhador do meu jardim....
Meu cavalo não tem olhos, nem cor... e se
perde no cinza da paisagem...
Em quase tudo repito esse eco...
Minha voz entoa, assim, repetida ansiedade
que me transforma em imitação do que não sou.....
Não sei ao certo...
até onde irão meus dias e se há muito crédito além daqui....
ainda assim caminho
como olhos e mãos que não acredito serem os meus
e pés de quem procura na chuva...
aquilo que esqueceu na própria casa...
Se não sou eu ainda ...
quem te acorda como um detento....
saudoso daquilo que tem, mas morto antes da verdadeira hora,
antes de qualquer despedida...
antes do último beijo de Natal...?

(Para ouvir clique aqui.)

Olhos negros




Com seus olhos negros,
o universo nos olha com tamanha indiferença
que iguala vida e morte em valor...
Sobra-me dessa imensa orfandade
a ilusão de que cada beijo que te dou
deixo de estar só e abandonado...
Sobram-me dessa imensa solidão
mãos hábeis e filhos que correm pela sala,
como se fossem os donos da casa...
Sobra-me a saudade de algo não vivido
e as lembranças do que não pude fazer...
Sobra-me um Deus poderosíssimo, um Deus temperamental
que inventou um domingo de cor
e apenas um sábado festivo...
Sobram-me eu e tu
que num ato mágico
escolhemos os nomes das crianças
parindo,
quem sabe,
a nossa loucura mais sábia....

(Para ouvir clique aqui)