sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Prisioneiro



Na sua alcova ela é quase prisioneira.
E só eu dou-lhe as chaves.
Liberta, ela dança ao ruído da chuva,
Suja as canelas com lama, ri, cansa e dorme
e só eu cubro seu corpo com frio.
Ao descortinar do dia,
ela corre pelas picadas que eu desconheço,
caminha estalando as folhas secas,
bebe água de poço,
mancha os lábios com musgo,
brinca com os caracóis
e na volta diz bobagens, me beija
me arranha as costas fazendo meiguices com a voz.
Puxa meus cabelos... Desavergonhada!!
Frente ao retrato de minha santa mãe,
frente a brasa do fogareiro.
Decerto ela é minha, aqui tudo é meu.
É tudo que tenho, Aqui sou senhor.
Aqui sou prisioneiro. 
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Saudade de um pai

Quando um pai se vai...
Ah, como me desperta
o que quis e não fiz em tempo.
A alegria que não trouxe
pagaria, agora, para carregá-la pra ele.
Quantos anos te perdi?
Quantos abraços fingi te dar?
Quantos anos ficarei a lembrar do que poderia ter sido.
Queria eu ir com ele
sob a sombra de quem fez
o que nós mal pensamos em fazer
a cada prece de tua mão calejada
a cada prece do pão e doce que nos trazia da rua.
Quando um pai se vai
não sobram apenas uma cama, uma cadeira, um lugar.
Sobra a dolorida sensação
que ainda haviam muitas palavras e muitas mãos estendidas pra te dar.
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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ausência


Posso somar todas as manhãs
que  te vejo acordar
e ainda não te reconhecer.
Eu faço bolhas de sabão pelo ar
desdenhando minha condição de objeto
e teus olhos malcriados
que adormecem quando desperto
e riem quando os meus lacrimejam.

Onde foste na minha ausência
e por que me deixas com quem não és na varanda?
Onde se escondeu e
como te achar se não desejas ser procurada?

Mulher... por quê choras quando saio
se no tempo em que venho lamentas?
Mulher... por quê se amaldiçoa quando estou
e ri do presente que te trago?

A voz de tantas se cala com coisas tão simples.
O pão que te sustenta, a sala limpa, a cama posta.
Aqui a comida não tem cheiro
Não vinga mais saudade no coração.
Traição é pouco, humildemente digo.
Antes a dor de tê-la saudosamente morta
A esperança quase sem vida
De esperá-la pra o jantar. 
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Dúvida do Guri


Cavalgava no quintal montado em bambus velhos.
Era eu um vaqueiro e meus cavalos não precisavam ser encilhados.
Carregava um colt, vestia um casaco velho
e a dançarina do salão era minha namorada.
Meu cavalo era negro, meio arisco
diante os olhos da vizinha curiosa.
A casa era grande e tinha janelas pra todos os gostos.
Poderia ser cidade do velho oeste ou mina abandonada;
lugar de duelo...
E este era sempre ao entardecer.
Assim podíamos ver as faíscas das espoletas.
E como na televisão se morria.
Só não compreendo, até hoje, os seus filmes  
-Ah o tempo brinca com a gente.. .-
Lá pensamentos como os meus não germinam.
Lá nada que passou desassossega o presente.
Nem mexe na serenidade sob os sombreiros dos cowboys sujos
as margens dos rios secos do Arizona 
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Incorporação


Não te trago troféus, nem feitos dos teus antigos.
Caminho com memória que seja
simples esboço de passagem
entre a férrea idéia de tempo
e minha feitura de cor vida.

Não te trago recordações de vitórias antigas,
nem suscito tua nostálgica euforia.
Caminho com idade que seja movimento e movimento
e minha imagem não se guarda,
mas se reproduz nos duros músculos de tua face.

Não serei assim como o estrangeiro
que anunciando a vinda do inimigo te trairá.
Nem terás o corpo esquartejado,
nem a cabeça pendurada sobre o poste
como exemplo aos aduladores da sorte.

Minha ousadia somente te fará ver
que amando o incomum te sentencias a ser só,
um eremita de tuas verdadeiras glorias.

Assim te invoco, te incorporo
como um anjo sem asas, sem grandes recomendações,
por não traçar tua vida como manda teu figurino
por não exercitar teus caninos;
vendo, agora, que a luz dos teus prodígios
é maior que as chamas desse castiçal que carregas
e que mela teus ossos
na adoração a tudo que já morreu.  
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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Espera


Olho para as paredes e para as ruas e te procuro
sem nunca ter te encontrado...
Mas você ainda sorri na penumbra
em parte de um sonho ou em pedaços de uma lembrança quase esquecida.
Te clamo,
mas nada sei do teu último paradeiro
ou a cor dos teus sapatos ou dos teus cabelos...
Onde estavas quando eu desenhava luas no caderno?
Onde habitavas quando te desejava em prece, sozinho, e molhado de chuva?
Peça de mármore, pedra polida, ouro de meu jardim...
Assim te imagino, assim te espero,
como um vigia, que insone,
agoniza numa longa e interminável noite sem ti.
Onde deixou meu coração?
Onde me abrirão a porta?
Onde haverá festa e jantar sobre a mesa?
As horas que passam são como doces que não saboreio...
O tempo que voa é como cavalos que não encilho..
O tempo é como um trem que não pego e nem vejo passar.
O tempo é como um trem que ouço e nunca vejo chegar
na longa espera por ti

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Boato


O boato me atordoa
sob o doce manto da credulidade e da ruim expectativa
não existe loucura, nem ousadia, que faça desacreditar
no que já foi dito e escrito..
no oficio de cada dia, de cada folha impressa,
e perante o juízo dessa lei.
Somos mesmo apenas criaturas de tv,
amantes das receitas de bolo,
e das ondas do rádio
que nos entristecem a cada manhã....
O silêncio que impera ocasionalmente
também me incomoda
como se assim fosse um grito de dor em cada ouvido....
não sei mais ficar sem suas histórias
sem a versão derradeira e maquiada da morte do rei...
Não há mais musgos, nem flores sobre tua casa
nem tua cama foi refeita antes de sair...
Só acredito no que ouço e leio
e sei que minto para meus próprios olhos.
Assim, a receita dessas horas ainda mistura
o açúcar da vizinha,
guarnecida com a farinha alva
e o boato que transformo
em guia de cego
e entrelinhas para acomodar qualquer desespero.

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