sobre minha cabeça digladiam
anjos caídos e anjos que sobem...
em mim mora um judas com complexo de culpa
e um rei de pança caída...
sobre minha cabeça penduram tantos rótulos,
tantas poses,
capazes de degolar minha verdadeira ansiedade...
como acreditam os índios
a pose para a fotografia pode aprisionar a alma...
e toda a vontade...
como acreditam
a máquina e a imagem guardada
sentenciam como se Deus fosse...
como eles, acredito
e sinto que a cada sorriso amarelo que dei,
a cada álbum de fotos de família,
a ideia de morte e a distância de meus sonhos
é mais real...
e dolorosamente presente...
como acreditam os índios
o melhor juiz nunca morou por aqui,
sem suscitou qualquer outro caminho
a não ser nunca se fotografar...
nas suas crenças o sol e a terra
são presentes de um íntimo desconhecido
e não há exagero em crer que todo o ouro e o tempo necessário nos foi confiado...
como acredito
sobre nossas cabeças
digladiam levas de todos os anjos,
onde se dá o falecimento de quem brinca e sonha
e o nascimento de quem conta o tempo
com toda a pressa do mundo,
aguardando o trem que não chega
e a fotografia que jamais poderá revelar...

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