quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sem sentido


Não há sentido...
nem memorável ou grande prazer...
a vida é estéril e rude
para nós que ainda não temos nome
ou que não definimos os desejos... nem seus objetos...
o sentido tem cor
e cheiro que não pertencem a esse mundo...
o sentido é não estar onde todos habitam ...
o sentido é, inexplicavelmente, uma coisa morta...
estar aqui é penar com as honras de quem goza...
Gozar é um verbo insincero..
minto quando finjo...finjo quando minto...
Meu medo é não estar no grupo dos sinceros
e minha dor e meu poder e não poder partilhar
da unidade da alma
que diabolicamente produzo e invejo....  

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Caminho


Caminho... como quem quisera ter sido o que ainda é.
Minha dor é só imaginar e quase não crer
nas certezas que a criança que fui guardava como moeda rara...
Minha dor é queimar meus dias como lenha velha
e ser o único lenhador do meu jardim....
Meu cavalo não tem olhos, nem cor... e se
perde no cinza da paisagem...
Em quase tudo repito esse eco...
Minha voz entoa, assim, repetida ansiedade
que me transforma em imitação do que não sou.....
Não sei ao certo...
até onde irão meus dias e se há muito crédito além daqui....
ainda assim caminho
como olhos e mãos que não acredito serem os meus
e pés de quem procura na chuva...
aquilo que esqueceu na própria casa...
Se não sou eu ainda ...
quem te acorda como um detento....
saudoso daquilo que tem, mas morto antes da verdadeira hora,
antes de qualquer despedida...
antes do último beijo de Natal...?

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Olhos negros




Com seus olhos negros,
o universo nos olha com tamanha indiferença
que iguala vida e morte em valor...
Sobra-me dessa imensa orfandade
a ilusão de que cada beijo que te dou
deixo de estar só e abandonado...
Sobram-me dessa imensa solidão
mãos hábeis e filhos que correm pela sala,
como se fossem os donos da casa...
Sobra-me a saudade de algo não vivido
e as lembranças do que não pude fazer...
Sobra-me um Deus poderosíssimo, um Deus temperamental
que inventou um domingo de cor
e apenas um sábado festivo...
Sobram-me eu e tu
que num ato mágico
escolhemos os nomes das crianças
parindo,
quem sabe,
a nossa loucura mais sábia....

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domingo, 10 de outubro de 2010

Aurora


Contempla o dízimo dessa aurora...
ela não é somente tua...
nem são teus braços que erguem o cenário...
nem és o maestro dessa trajetória...
mas parece ser só tu,
contemplador,
que acende esse enorme fósforo horizontal..

contempla esse porre,
essa ressaca,
sublime esperança laranja
sobre a pira indecente dessas lâmpadas acesas.

contempla maldito...
contumaz aventureiro dessas paragens
a agonia dessa noite não consumida
é o fim passageiro da tua agonia.

a aurora te acorda,
tu que renasce como um feto encardido.
A aurora tempera e dilui
a cor dessas calças sujas
e o desamor aos outros
que te vêem e são como tu.  

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O geômetra


Um geômetra,
desses matemáticos, quase arquitetos,
quase artistas, desses aparentes ateus éticos,
disse poder prever o destino da gente com sua arte...
falando como doutor,
medindo atos e as palavras
como se em tudo tivesse uma fórmula encoberta,
disse ter a melhor filosofia para levar os homens ao paraíso e apontou a poesia como caminho.
Medindo os versos como seu os poetas formassem sobre o papel círculos e losângulos secretos, falou em cura da dor confinando neruda, drummond e borges a um triângulo equilátero perfeito,
 a uma triologia arquitetônica perfeita,
capaz de decifrar o mistério do nascimento das crianças e das rugas dos velhos.
“Falta poesia ao mundo, berrou. “Não a poesia dos livros e dos românticos entediados como sua própria aflição, mas a delicadeza que se perde na pressa desse tempo”, disse.   
“as almas não se encantam apenas corpos se somam na contabilidade traiçoeira do mundo”, alertou.                
 Falou tanto e de tanto falar, fez rir os sábios, confundiu os aprendizes e entendiou quem lhe assistia pela televisão.
 Quando terminou a sala estava vazia
e através das antenas de tv
o povo o confundiu como um novo número de circo e gargalhou sem fim...
com o testemunho de um Deus como losângulos nos olhos, retângulos nas maos, lágrimas esféricas no rosto e pura poesia no coração 

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A porta


a morte é uma porta
sem vendedor de bilhetes
nem leão de chácara.
movido pela vida,
lá foi tu.
logo irei eu...

irmão das mesmas bobagens
e ouvidos para toda a hora

além desta porta
além de todos os nossos túmulos,
Deus te espera ansioso
com um relho simbólico
e um velho baralho. 

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Sapatos


a vida é um grande sapato.
cujos cadarços envolvem todo o corpo.
os missionários de Aparecida acreditam e fazem acreditar que esses cadarços sobem até as mãos de Deus,
mas se assim for como chegam as mães as cegonhas?
como decolam os aviões carregados de cartões de natal?
como ícaro ousado subiu?
como sobem os balões e as vozes das crianças?

como descem os relâmpagos e as pedras da lua?
como sobem os abutres suicidas e as bolhas de sabão de um louco numa cela?
se há no céu uma rede de barbantes e na terra amantes enlaçados com um cordão de prata?

é, a vida é um grande sapato, um só.
o outro o imperador pôs numa garrafa e jogou no mar.
ando num pé só,
ando num pé só. 

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